
No último dia 23 de outubro, na abertura da ABAV 2008, o presidente da CVC Valter Patriani deu uma polêmica entrevista ao Panrotas Jornal. Os resultados então foram grandes discussões de 3 temas inerentes ao assunto: a legislação vigente que afeta os cruzeiros internacionais, a fatia desse mercado que é a moda do turismo nacional atual e o retorno da discussão sobre a sustentabilidade dos cruzeiros.
Vamos primeiro à declaração de Valter Patriani:
A cerca de 3 meses, durante o Encontro Nacional das Agências de Viagens 2008 (AVIRRP) em Ribeirão Preto, Patriani havia afirmado para cerca de 2 mil agentes de viagens de todo Brasil que a CVC já havia comercializados 70% das cabines de seus 6 navios na temporada 2008/2009.
O mercado de cruzeiros continua em franco crescimento, na ordem de 20% anuais segundo a Costa Cruzeiros. Em Santos, haverá um crescimento na ordem de 8% em movimentação financeira (R$ 140 mi, contra R$ 130 mi) e relação a temporada passada.
Porém, segundo Patriani, as italianas Costa Cruzeiros e MSC Cruzeiros, estão com perspectivas de crescimento de oferta na ordem de 80% e 32% respectivamente, incluindo a vinda de uma nova empresa trazida pela Costa Cruzeiros, a Ibero Cruzeiros, especialista no público jovem.
Para Patriani, haverá a quebra do equilíbrio que o mercado de cruzeiros têm atualmente no país e que o excesso de oferta trará diminuição na lucratividade de todas as companhias que trabalham com esse tipo de atividade no país.O principal questionamento de Patriani na verdade, é a liberdade que as multinacionais têm para aumentar a oferta na proporção que está sendo divulgada. Segundo ele, as conseqüências seriam a diminuição da taxa de ocupação dos hotéis no Brasil que, ao contrário dos navios dos europeus, quando termina a temporada não podem transferi seus hotéis para Europa.
Além disso, Patriani defende o aumento do número de funcionários brasileiros na tripulação e contrapartida em prol do turismo nacional, citando o exemplo da própria CVC e da Nascimento Turismo, que fretam navios e vendem no Brasil, ou seja, o dinheiro fica no país, ao contrário do capital que entra nas duas multinacionais italianas.
Patriani pede ainda que governo exija uma contrapartida das companhias marítimas internacionais, para o desenvolvimento do turismo nacional, por exemplo trazerem seus navios vinculados a alguma operadora brasileira e ter mais brasileiros trabalhando a bordo.
O presidente da CVC finaliza que não é contra os cruzeiros e não tem medo da concorrência (atualmente a oferta de cabines da CVC é semelhante a da Costa e MSC), mas sente que esse excessivo da oferta poderá causar o desajuste do mercado de cruzeiros que hoje se encontra muito equilibrado.
1º A Legislação vigente que afeta os cruzeiros internacionais
A Associação Brasileira de Representantes de Empresas Marítimas – ABREMAR aproveitou a exposição do tema para entregar um documento manifesto as autoridades que regulam o tráfego marítimo do país para reivindicar um imposto que afeta diretamente os cruzeiros internacionais que passam pelo país.
Segundo a legislação vigente, caso um navio faça escala em 2 portos nacionais, é considerado cabotagem, ou seja, navegação de trânsito doméstico, fazendo com que vários processos burocráticos e, principalmente, tributários sejam obrigatórios para os navios.
O resultado disso é a inviabilidade das empresas colocarem mais de 1 porto para fazer escala nos cruzeiros internacionais no país, fazendo com que o país deixe de ganhar milhões em renda para as localidade onde os turistas desembarcam para passeios e compras.
A carga tributária é tão alta que um navio com 500 tripulantes tem que desembolsar mais de R$ 250 mil caso queira fazer 2 escalas no país. O fato fez que houvesse uma queda de 53% no número de escalas no país em 4 anos.
2º A fatia do mercado moda do turismo nacional
Para Eduardo Nascimento,da Nascimento Turismo, o cálculo do presidente da CVC sobre o mercado para cruzeiros está equivocado. Para Nascimento, atualmente apenas 2% do mercado potencial de cruzeiros é utilizado no país, ou seja, o mercado irá absorver tranquilamente a vinda dos novos naviosEle ainda diz que a preocupação de Patriani é referente a vinda das empresas que a CVC freta os navios e não uma questão de falta de mercado.
Dado Nascimento, da Sun&Sea, concorda com Patriani somente na questão do aumento excessivo na oferta de cruzeiros que poderá prejudicar o turismo nacional, mas pensa que não é o caso atual.Para ele o mercado cresce de forma natural e defende o comprometimento das empresas italianas, pois, ambas aumentaram a duração da temporada, agora serão 8 meses (de outubro de 2008 a maio de 2009) e que isso é uma prova concreta desse comprometimento com o país.
A MSC Cruzeiros (que irá ofertar 300 mil leitos na próxima temporada) pensa que as palavras de Patriani são um desabafo de um problema comercial entre a CVC e a Costa Cruzeiros, já que está trará seus navios para o Brasil e não mais fará frete a CVC.
Roberto Fusaro, diretor geral da companhia, disse que o Brasil é o segundo mercado do mundo para a empresa (que é uma das maiores do mundo) perdendo apenas para o Mediterrâneo e que o crescimento da empresa para temporada que vem de 33% é facilmente absorvido no mercado.Fusaro lembra ainda que a CVC cresceu nada mais nada menos do que 63% em relação à última temporada e que todo esse alarde é em relação a perda de 3 de seus 6 navios.
A Costa Cruzeiros ainda não se manifestou, mas já prepara uma carta com seu posicionamento quanto ao tema. A gigante italiana dos cruzeiros tem no Brasil entre 7% e 8% de seus faturamento e na temporada que vem pretende atingir 10%.
3º: O retorno da discussão sobre a sustentabilidade dos cruzeiros
Patriani se diz preocupado com a taxa de ocupação dos hotéis e resorts no Brasil caso a oferta de cabines seja muito grande na próxima temporada.
Defende também maior contratação de brasileiros como tripulantes e que, pelo menos, a venda das cabines seja feita por alguma operadora nacional, para que haja uma contrapartida ao país pelas empresas que sugariam os lucros no país em plena alta temporada e, quando esta acabar, voltará à Europa para a temporada de lá.
Alexandre Zubaran, presidente da Resorts Brasil, se manifestou sobre o ponto de vista da sustentabilidade desta mudança no mercado. "Temos vergonha, como bons subdesenvolvidos, de pedir proteção a nossa indústria, mas a Itália não tem vergonha de taxar nossa banana e os Estados Unidos nossa laranja; e se banana e laranja não são produtos sofisticados, eles taxam também nosso etanol", explica ele. "Nunca critiquei as empresas brasileiras e parecia que eu defendia a CVC, mas a CVC vende Brasil o ano todo. As companhias marítimas estrangeiras chegam sem regras e concorrem assimetricamente com os hotéis,que estão aqui o ano todo", continua ele.Finaliza defendendo um debate sócio econômico “sem banalização” entre operadoras turísticas, empresas marítimas e resorts em prol do turismo nacional.
Verdadeiros hotéis (ou cidades) móveis, os cruzeiros levam entre mil e 4 mil pessoas entre destinos turísticos.
Americanas (Royal Caribean), italianas (MSC e Costa) e espanholas (Ibero) já operam no Brasil. Outras planeiam vir a esse que é o segundo mercado de várias grandes companhias do setor.
O mercado de cruzeiros nunca foi tão promissor e nunca se fez tão necessário sua reflexão.
Os 3 temas: legislação, mercado e sustentabilidade são claros e muito discutidos pelas principais autoridade em MERCADO do turismo nacional.
Eis então que viemos, turismólogos, para elevar o debate e vislumbrarmos as verdadeiras ambições em cada discurso, se é comercial, ideológico ou político.
A atividade já merece uma revisão de legislação dado o fato de seu crescimento? O aumento da oferta é excessivo? Você apóia a vinda das multinacionais? Quais são os benefícios e malefícios dessas empresas multinacionais no país? Qual é o nível de sustentabilidade dos cruzeiros atualmente no país?
Abraços e boa discussão.







