
O PAGAMENTO DE GORJETAS – O BRASILEIRO É PÃO DURO, OU SIMPLESMENTE MAL ORIENTADO?
Duas conversas recentes me fizeram ponderar porque os Brasileiros em geral são aparentemente cada vez “menos generosos” na hora de pagar gorjetas.
A Queensberry opera mais de 300 viagens em grupo todo ano e sempre informamos os clientes que todas as gorjetas (aos guias locais, aos motoristas e aos carregadores) são incluídas no preço publicado, com a única exceção da “tradicional gorjeta” ao guia permanente no final da viagem, que fica a critério de cada passageiro. Conversando com um dos nossos mais experientes guias, ele me informou que os valores que ele e seus colegas recebem são cada vez menores, mesmo que os passageiros continuam dando “nota 10” à atuação do guia permanente nos ”opinários” que completam no final de cada viagem.
Conversando com o Guest Relations Officer a bordo de um dos navios da Princess Cruises, ele me contou de um caso bem mais sério! Quase todos os navios grandes cobram gorjetas (em torno de US$ 10.00 por pessoa por dia) que normalmente são recebidas dos passageiros em envelopes na última noite do cruzeiro; estes valores são destinados às camareiras, aos garçons e ao maitre D, formando assim uma parte substancial da remuneração dos mesmos. Se, por algum motivo, um passageiro achou o atendimento a bordo inferior ao esperado, ele tem sempre o direito de recusar o pagamento, mas isso quase nunca acontece. Mesmo que eu pessoalmente nunca concordei com esta política – acreditando que o preço do cruzeiro deveria incluir a remuneração total dos funcionários em todos os níveis – a política é quase universal e os passageiros sempre recebem informações sobre esta cobrança na hora de comprar o cruzeiro.
Alguns anos atrás, a Princess Cruises adotou a política de debitar este valor (US$ 120.00 por pessoa para um cruzeiro de 12 noites) na conta dos extras dos passageiros, em lugar de colecionar envelopes com dólares na última noite. Da mesma maneira de antes, um cliente pode exigir o cancelamento deste débito se ele não estiver satisfeito com o serviço a bordo.
No caso em questão, o Guest Relations Officer me contou que, num cruzeiro recente que tinha mais de 500 brasileiros a bordo, um passageiro descobriu que o débito na conta dos extras poderia ser estornado se o passageiro exigir, e imediatamente disseminou a noticia entre um grande número dos brasileiros a bordo. Logo se formou uma fila de brasileiros no Purser’s Desk, todos solicitando o estorno do referido débito – mesmo que ninguém tenha feito uma sequer reclamação quanto ao serviço a bordo. Entendo que nunca houve um caso semelhante em qualquer navio da Princess Cruises.
Eu me pergunto se esta aparente “falta de generosidade” pode estar relacionado com a falta de conhecimento das práticas no mundo lá fora, que deixa o brasileiro tão desorientado na hora de decidir quanto pagar que ele acaba pagando nada! Quem mora num país (o único do mundo?) onde taxistas nem esperam gorjetas, enquanto manobristas de restaurantes e flanelinhas recebem valores absurdamente altos, pode ser perdoado por faltar padrões lógicos sobre o valor a ser pago.
Como estrangeiro com residência permanente no Brasil, sempre achei e continuo achando os brasileiros o povo mais simpático e generoso do mundo – de fato o principal motivo pela minha decisão, há 29 anos, de emigrar da Inglaterra para morar aqui. Gostaria muito se alguém poderia explicar porque, então, não é bem assim na hora de pagar gorjetas !
MARTIN JENSEN